Obrigado por terem lido esta rapsódia de palavras…
A aventura prossegue aqui:
Elegias da Tristânia

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Elegias da Tristânia
Sometimes I say I’m going to meet my sister at the café—
even though I have no sister—just because it’s such
a beautiful thing to say. I’ve always thought so, ever since
I read a novel in which two sisters were constantly meeting
in cafés. Today, for example, I walked alone
on the wet sidewalk, wearing my rain boots, expecting
someone might ask where I was headed. I bought
a steno pad and a watch battery, the store windows
fogged up. Rain in April is a kind of promise, and it costs
nothing. I carried a bag of books to the café and ordered
tea. I like a place that’s lit by lamps. I like a place
where you can hear people talk about small things,
like the difference between azure and cerulean,
and the price of tulips. It’s going down. I watched
someone who could be my sister walk in, shaking the rain
from her hair. I thought, even now florists are filling
their coolers with tulips, five dollars a bundle. All over
the city there are sisters. Any one of them could be mine.
Karin Gottshall, in “More Lies”
Und plötzlich sieht der Himmel aus wie Blut
Und plötzlich sieht die Sonne aus wie Glut
Das lassen uns Götter doch nicht zu
Sagen die Gelehrten
Sagen die Gelehrten
Das hat es früher nicht gegeben
Mit Macht der Menschheit ihres Sinnes zu berauben
Das lassen uns Götter doch nicht zu
Sagen die Gelehrten
Sagen die Gelehrten
Die Strafe ist nicht hoch genug
Die brauchen doch kein Licht zum Sterben
Es sieht ihnen doch niemand dabei zu
Und plötzlich sieht der Himmel aus wie Blut
Und plötzlich sieht die Sonne aus wie Glut
Mit Gewalt Mitleid zu erregen
Das lassen uns Götter doch nicht zu
Sagen die Gelehrten
Sagen die Gelehrten
Und niemand lehnt sich dagegen auf
Dem Teufel seine Spielchen zu verderben
Wie lange kann es überweilen auf Erden
—————————
And suddenly the sky looks like blood
And suddenly the sun looks like embers
The gods do not allow us to but
The scholars say
The scholars say
This had not previously given
With power to deprive humanity of its meaning
The gods do not allow us to but
The scholars say
The scholars say
The penalty is not high enough
The need to die but no light
They see no one here to
And suddenly the sky looks like blood
And suddenly the sun looks like embers
To provoke violence with compassion
The gods do not allow us to but
The scholars say
The scholars say
And no one is leaning on the other hand,
To destroy the devil’s games
How long it can stay on earth
Nico, in “Sagen Die Gelehrten”
My heart is silent as a look.
There is a home beyond the hills.
My heart is silent as a look.
My home is there, beyond the hills.
I bear my heart like an old curse.
There is no reason for regret.
I bear my heart like an old curse.
Why should we reason or regret?
My heart dwells in me like a ghost.
Beyond the hills my hope lies dead.
My heart dwells in me like a ghost.
Beyond my hope the hills lie dead.
They took away my heart like weeds.
It was not true that I should live.
They took away my heart like weeds.
I could not think it true to live.
Now there are great stains in my heart.
They are like blood‑stains on a floor.
Now there are great stains in my heart.
And my heart lies upon the floor.
The room is closed for ever now.
My heart is now buried alive.
My heart is closed for ever now.
The whole room is buried alive.
Fernando Pessoa, in “The Mad Fiddler” | Poesia Inglesa
A doença deixara-o enfraquecido e o seu corpo amadurecia na fragilidade de uma criança, embora a alma de nada fosse pequena e pálida. Decidiu respirar o ar que, estacionado na tarde junto ao seu castelo, sugeriu às pernas debilitadas moverem-se para assistir à contemplação do jardim esbranquiçado pelas rosas nascidas entre as camadas ténues da neve. A brisa gélida, cujo assobio rompia os campos e as pedras, empurrou a sua mão levando-a a suster uma delas. Oh carícia celeste o toque dos seus dedos em oferenda à violência dos angustiados lábios do espinho.
Uma outra sala. Esta que desconheço as dimensões. Ainda o teu rosto, o teu corpo presente. Entre a distância à qual o espaço nos dispôs, uma camada de gelo persistia sem que alguém a tentasse fragmentar. Nem a respiração transpirada e ofegante do meu espírito, inquietado pela magnitude do teu movimento, ousou romper pelas envergonhadas correntes escondidas num silêncio brando e branco.
E quanto desejei suster a minha atormentada cabeça no teu ombro.
“Deixa-me adormecer junto ao teu negro casaco”
O tempo perduraria nesse sono. O momento encalhado num passado sem posse.
“Deixa-me acordar no teu olhar. O que vês? De que tamanho sou?”
O teu cabelo era novo. Não me esqueci de pensar o quanto eu gostei do teu cabelo. Não o disse. Queria tocar-lhe. Não o disse, de novo.
(Numa outra sala, a primeira talvez) aguardava sem intenção a tua chegada. Chegaste. Parti.
Os passos levaram-te, então, até ao declive que se encontrava no fundo do corredor de gente. A porta abriu-se. Partiste. Eu, que ainda olhava o chão na ânsia de assistir ao teu reflexo levemente traçado na transparência do piso, perdi um adeus incertamente dito. Um vento glacial afastara o pensamento das tuas mãos.
Ao teu lado, a sombra da minha saudade caminhava.
Perdera-te novamente.
saaqii ki har nigaah pe bal khaa ke pee gayaa
laharoN se khelataa huaa lahraa ke pee gayaa
ai rahmat-e-tamaam meri har khata muaaf
main intehaa-e-shauq mein ghabraa ke pee gaya
peetaa beghair izn ye kab thii meri majaal
dar-pardaa chashm-e-yaar kii shah paa ke pee gayaa
zaahid ye merii shokhi-e-rindaana dekhnaa
rahmat ko baaton baaton mein bahlaa ke pee gayaa
(…)
I drank in awe of every glance of the cup-bearer
I drank playfully while playing with waves of joy
O all-merciful! Please forgive all my wrong-doings
I drank confounded of the extreme desire
I do not dare to drink without permission
but the patronage of concealed eyes of my beloved made me drink
O abstinent! Look at the mischievousness of my drinking
I drank after I befriended forgiveness
(…)
Nusrat Fateh Ali Khan, in “Ye Jo Halka Halka Suroor Hai”
Sei que fiquei pendurado naquela árvore fustigada pelo vento,
Lá balancei por nove longas noites,
Ferido pela minha própria lâmina, sacrificado a Odin,
Eu em oferenda a mim mesmo:
Amarrado à árvore
De raízes desconhecidas.
Ninguém me deu pão,
Ninguém me deu de beber.
Meus olhos voltaram-se para as mais entranháveis profundezas,
Até que vi as Runas.
Com um grito ensurdecedor agarrei-as,
E, então, tão fraco estava que caí.
Ganhei bem-estar
E sabedoria também.
Uma palavra, e depois a seguinte,
conduziram-me à terceira,
De um feito para outro feito.
(in Edda Maior, Hávamál : 138-165)
Eis a minha confissão…
Ouçam-me, oh olhos que me julgam!
Saboreai, agora, as salgadas lágrimas da minha derrota.
Confesso… perdi!
Em tudo me venceram, demónios!
Porém, minha musa, a vingança
vestir-me-à de novo com os mantos do orgulho
e a minha força estender-se-à até ao vosso encontro,
tal como o fogo quando destrói as cidades que,
caiadas de verde,
escondem os seus segredos nefastos.
Tem piedade dos vencedores, Senhor dos Céus!
Os seus festejos são meras máscaras dos futuros fúnebres
que estarão para chegar.
Perdoa a minha fraqueza,
a minha solidão.
Concede-me uma morte penosa e lenta
para que seja audaz e forte
na hora do novo nascimento.
Concede-me o aço da espada
e a coragem do meu peito será meu escudo.
Perdoa-me se algum dia,
dilacerado pela dor,
me perdoar.
Rastejarão a meus pés todos os seres
que me odiaram,
perseguiram,
e me condenaram
ao seu próprio juízo.
Beberei o vosso sangue
em copos banhados pelo velho ouro
outrora jovem e meu.
Comerei as vossas entranhas
e lançarei aos lobos os vossos descendentes,
depois de violar a privacidade corporal de quem os pariu,
de ouvir a respiração destas
a caminhar para um último suspiro,
para uma última gota de suor.
Aqui faço a minha confissão…
O derradeiro acto de respeito.
Não ouvireis mais os sons das minhas palavras,
senão aquelas gravadas nas lanças
que um dia romperão as muralhas e as torres
do vosso mundo condenado.
Oh! Elas saberão como arrancar os vossos corações!
E chorarei uma lágrima por cada vida que tirar.
Um gesto piedoso
que nunca de vós vi,
quando prostrado às vossas falsas leis
oferecia o sacrifício da minha alma e corpo
pela cegueira dos que amava.
Que Iodunn me alimente
e Loki me guie durante o caminho!
Em nome de meu pai,
de minha mãe,
mulher e filhos.
Ámen!
Eleazar de Tristânia
” (…) Toda a paixão é para ele (Homem) uma forma de intoxicação, e desde que não pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxicação parece-lhe o único alívio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, é o sintoma duma doença de raízes profundas. Quando não há tal doença, a felicidade provém da plena posse das suas faculdades. (…) “
Bertrand Russell, in “A Conquista da Felicidade”
Todas as batalhas pareciam-lhe inúteis comparadas à sua verdadeira conquista… eternas lágrimas de abandono. Eleazar assim escreveu:
“Sento-me, com a alma pesada, no trono dos velhos príncipes. Hoje, jazem no único pedaço de terra herdado após toda a perda que a felicidade de Eros lhes trouxe.”